Julho 09, 2009

Jamanta Dourada

Tenho um amigo, cujo nome, por muitas razões, não posso dizer, conhecido como o mais dark. Dark no visual, dark nas emoções, dark nas palavras: darkésimo. Não nos conhecemos a muito tempo, mas imagino que, quando ainda não havia darks, ele já era dark. Do alto de sua darkice futurista, devia olhar com soberano desprezo para aquela extensa legião de paz e amor, trocando flores, vestida de branco e cheia de esperança.

Pode parecer ilógico, mas o mais dark dos meus amigos é também uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Rio sem parar do humor dele- humor dark, claro. Outro dia esperávamos um elevador, exaustos no fim da tarde, quando de repente ele revirou os olhos, encostou a cabeça na parede, suspirou bem fundo e soltou essa:

-"Ai, meu Deus, minha única esperança é que uma jamanta passe por cima de mim..."

Descemos o elevador rindo feito hienas. Devíamos ter ido embora, mas foi num daqueles dias gelados, propícios aos bebidas e às abobrinhas.

Tomamos um vinho quente no bar. E imaginamos uma história assim: você anda só, cheio de tristeza, desamado, duro, sem fé nem futuro. Aí você liga para o Jamanta Express e pede: -"Por favor, preciso de uma jamanta às 3h15, na esquina da rua tal com tal. O cheque estará no bolso esquerdo da calça".

Às 3h14, na tal esquina (uma ótima esquina é a Franca com Haddock Lobo, que tem aquela descidona) , você olha para esquina de cima. E lá está- maravilha!- parada uma enorme jamanta reluzente, soltando fogo pelas ventas que nem um dragão de história infantil. O motorista espia pela janela, olha para você e levanta o polegar. Você levanta o polegar: tudo bem. E começa a atravessar a rua. A jamanta arranca a mil, pneus guinchando no asfalto.

Pronto: acabou.

Um fio de sangue escorrendo pelo queixo, a vítima geme suas últimas palavras:

-"Morro feliz. Era tudo que eu queria..."

Dia seguinte, meu amigo dark contou:

- "Tive um sonho lindo. Imagina só, uma jamanta toda dourada..."

Rimos até ficar com dor na barriga. E eu lembrei dum poema antigo de Drummond. Aquele Consolo na Praia, sabe qual?
"Vamos não chores / A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu" – ele começa, antes de enumerar as perdas irreparáveis: perdeste o amigo, perdeste o amor, não tens nada além da mágoa e solidão. E quando o desejo da jamanta ameaça invadir o poema – Drummond, pergunta: "Mas, e o humor?" Porque esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feito idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada. Dark, qual o problema?

Deus é naja - descobrimos outro dia.

O mais dark dos meus amigos tem esse poder, esse condão. E isso que ele anda numa fase problemática. Problemas darks, evidentemente. Naja ou não, Deus (ou Diabo?) guarde sua capacidade de rir descontroladamente de tudo. Eu, às vezes, só às vezes, também consigo. Ultimamente, quase não. Porque também me acontece – como pode estar acontecendo a você que quem sabe me lê agora - de achar que tudo isso talvez não tenha a menor graça.

Pode ser: Deus é naja, nunca esqueça, baby.
Segure seu humor. Seguro o meu, mesmo dark: vou dormir profundamente e sonhar com uma jamanta. A mil por hora.
RiNATu

Julho 01, 2009

Segredo

Não, não ofereço perigo algum: sou quieto como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, definido e claro como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto - se tomado com cuidado, verto água límpida sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas se tocado por dedos bruscos num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada. Tenho pensado se não guardei indisfarçáveis remendos das muitas quedas, dos muitos toques, embora sempre os tenha evitado aprendi que minhas delicadezas nem sempre são suficientes para despertar a suavidade alheia, e mesmo assim insisto - meus gestos e palavras são magrinhos como eu, e tão pálidos que, esboçados à sombra, se destacam do escuro, quase imperceptível me movo, meus passos são inaudíveis feito pisasse sempre sobre tapetes, impressentido, mãos tão leves que uma carícia minha, se porventura a fizesse, seria mais branda que a brisa da tardezinha.

Mal posso conter um susto investigando o porte de cada homem que se aproxima, em cada esquina que dobro, em cada trem do metrô que tomo para ir e vir, sinto que busco prometido e me detesto por essa inquietação febril, pelo amor que desconheço e mal consigo supor, tão parca é minha vida de memórias ou medidas. Esforço-me por dar-lhe pinceladas tênues, não me atrevo aos óleos nem aos acrílicos, é nos guaches e... sobretudo nas aquarelas que procuro o verde esmaecido de sua tez, mas por vezes alguma coisa se alvoroça e me surpreendo alucinada, incontrolável, a chafurdar em tintas fortes, berrantes cores primárias, formas toscas, símbolos sensuais, e é então que mergulho em banhos gelados no meio da noite para apaziguar a carne incompreensível, a TV só toca Michael Jackson o Rei das Almas tristes de todo o mundo, afogado entre lençóis, as palavras da cigana, imagino se não será o próprio Senhor este que se aproxima, e não conheço...


Oh!
Em cada julho, sei que não suportarei o próximo agosto, me debato elaborando aquela futura tarde gris para encontrá-lo - não aqui, entre torpezas, mas numa outra dimensão de luz maior, além de meu próprio corpo, irmão-burro aprisionado pelos instintos, num espaço discreto e contido como eu mesmo venho sendo através destas quase duas décadas que, álgido, sobrepujei. Sobrevivo a cada manhã quando, cruzando as portas e corredores que me conduzem às ruas intermináveis, imagino sempre que sou invisível para cada um dos que passam. Ninguém suspeita de meu segredo, caminho severo e duro e mole também pelas calçadas, olhos baixos para que minha sede não transpareça: ah sou tão pálido e magrinho que ninguém me adivinha assim como tenho andado - castamente cinzelado no topo deste morro onde os ventos não cessam jamais de uivar, tendo entre as mãos, como quem segura lírios maduros dos campos, uma espera tão reluzente que já é certeza para mim, Deus!

RiNATu

Junho 23, 2009

A Procura da Pergunta


Assiti um filme famoso, desses que todos perguntam para todos, sabe, esses que vendem milhões. Cedi. "À Procura da felicidade". É nome. Pois, então.
Não entrarei em detalhes. O que mais me afligiu no filme foi que:

- Gente, ele não fala da procura pela felicidade. Ele fala sobre a procura do dinheiro!
[?]

O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Eu sou uma pergunta.
Eu misturei tudo demais, eu li livro, romance para mocinha, livro cor de rosa, misturado com Dostoievski, eu escolhia os livros pelos títulos e não por autores, pq eu não tinha conhecimento... fui ler aos 13 anos Hermann Hesse, tomei um choque: O Lobo da Estepe. Aí comecei a escrever um texto tão grande que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora.
Eu sou uma pergunta.


?RiNATu?

Junho 21, 2009

"Ondulado silêncio"

Eu não tenho culpa. Não fui eu quem fez as coisas ficarem assim desse jeito que não entendo, que não entenderia nunca. Vc também não tem culpa, vou chamá-lo de vc porque ninguém nunca ficará sabendo, nem era preciso, a culpa é de todos e não é de ninguém.

Não sei quem foi que fez o mundo assim horrível às vezes quando ainda valia a pena eu ficava horas pensando que podia voltar tudo a ser como antes... muito antes e então quem sabe podia tudo ser de outra forma depois de pensar nisso eu ficava alegre quem sabe quem sabe um dia aconteceria mas depois pensava tb que não ia adiantar nada e tudo começaria a ficar igual de novo no momento que um homem qualquer resolvesse... ufa... essas coisas duras que vejo da janela na televisão no cinema na rua em mim mesmo e que eu ia como sempre sair caminhando sem saber aonde ir sem saber onde parar onde pôr as mãos os olhos e ia me dar aquela coisa escura no coração e eu ia chorar chorar durante muito tempo sem ninguém ver é verdade tenho pena de mim e sou fraco nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora mas ao menos nesse agora:

- Eu quero ser como eu sou e como nunca fui e nunca seria.

Se continuasse me entende eu não conseguiria não você não me entendeu nem entende nem entenderia você nem sequer soube sabe saberá amanhã você vai ler esta carta e nem vai saber que você poderia ser você mesmo e ainda que soubesse você não poderia fazer nada nem ninguém eu já não acredito nessas coisas aaah... Por isso eu não te disse compreende talvez se eu não tivesse visto de repente o que vi não sei no, ah, momento em que a gente vê uma coisa ela se torna irreversível inconfundível porque há um momento do irremediável como existem os momentos anteriores de passar adiante tentando arrancar o espinho da carne há o momento em que o irremediável a verdade se torna tangível
ah... eu sei disso não queria demonstrar que li algumas coisas e até aprendi a lidar um pouco com as palavras apesar de que a gente nunca aprende mas aprende dentro dos limites do possível acho não quero me valorizar não sou nada e agora sei disso eu só queria ter tido uma vida completa elas eram horríveis mas não quero falar nisso...
Podia falar, de quando, te vi pela primeira vez, sem jeito: de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces não me importo de ser vulgar não me importa o lugar comum dizer o que outros já disseram não tenho mais nada a resguardar um momento à beira de não ser, eu não sou mais, tudo se revelou tão inútil à medida em que o tempo passava tudo caía num espaço enorme... amar esse espaço enorme entre mim e você, mas... não se culpe deixa eu falar como se você não soubesse não se culpe por favor não se culpe ainda que esse som na campainha fosse gerada pelos teus dedos eu não atenderia eu me recuso a ser salvo e é tão estranho o entorpecimento começa pelos pés aquela noite eu ainda esperava quase digo sem querer teu nome digo ou escrevo não tem importância vou escrevendo e falando ao mesmo tempo é estranho me desculpa saí correndo no bar e me joguei na água gelada desse junho invadi sem ter direito a névoa destaquei meu corpo contra a madrugada esmaguei flores não nascidas apertei meu peito na laje fria do cimento a névoa e eu o bar e eu a madrugada e eu costurado na noite no escuro pq me dissolvia à medida em que me integrava no ser do parque e me desintegrava de mim mesmo preenchendo espaços aqueles enormes es...paços brancos! terrivelmente brancos e vc não teve olhos para ver que a balada era vc a água vc a névoa vc a madrugada vc as flores vc os canteiros vc o cimento vc não teve mãos para mim só aquela ternura distraída a mesma dos edifícios e das ruas mas eles me desesperavam vc me desesperava eu não quero falar nelas mas elas estão na minha cabeça como os meus cabelos e as vejo a todo instante cantando aquela canção de morte a minha carne dilacerada e eu ridículo queria ter uma vida completa vc não se parecia com Tom tinha os olhos de figos maduros os mesmos que tive um dia e perdi não sei onde não sei por que e de repente voltavam em vc nos cabelos finos muito finos finos como cabelos finos eu minto que me bastaria tocá-los para que tudo fosse outra vez mas não toquei eu não tocaria nunca na carne viva e livre eles me rotularam me analisaram jogaram mil complexos em cima de mim problemas introjeções fugas neuroses recalques traumas e eu só queria uma coisa limpa verde como uma folha de bananeira aquela mesmo que existiu mas onde me buscava só havia sombra eu me julgava demoníaco mas não pense que estou disfarçando e pensando como-eu-sou-bonzinho-porque-ninguém-me-ama eu me achava envelhecido me sentia sórdido humilhado uma faixa de treva crescia em mim feito um câncer a minha carne lacerada estou dentro dessa carne lacerada que anda e fala inútil a carne conjunta das xifópagas e o vento um vento que batia nas janelas e fazia aquele barulho e me levava embora por sobre os telhados as varandas os sobrados os porões os jardins o campo o campo e o lago e o mar eu quero me chamar Mar vc dizia e ria e ríamos pq era absurdo alguém querer se chamar Mar ah mar amar e eu dizia coisas tolas como quando o vento bater no trigo te lembrarás da cor dos meus cabelos eu não vou muito além desses príncipes pequenos minhas palavras todas não tenho culpa não tenho culpa eram de quem pedia cativa-me eu já não conseguiria bem lento eu não conseguiria eu não sei mais inventar.

A não ser coisas sangrentas como esta a minha maneira de ser um momento à beira de não mais ser não me permite um invento que seja apenas um entrecaminho para um outro e outro invento mesmo a destruição tem que ser final e inteira sobre nossas cabeças não posso ser salvo por ninguém vivo e os mortos não existem a pagina está acabando começo a ficar tonto a dormência chegou quem sabe ao coração talvez eu pudesse eu soubesse eu devesse eu quisesse quem sabe mas não chore nem compreenda te digo enfim que o silêncio e o que sobra sempre como em García Lorca solo resta el silêncio un ondulado silêncio os espaço de tempo a nos situar fragmentados no tempoespaçoagora não sei onde fiquei onde estive onde andei nada compreendi desta travessia cega a mesma névoa da balada outra vez a mesma dor de não ser visto elas gritam sua canção de morte este sangue nojento escorrendo dos meus pulsos sobre a cama o assoalho os lençóis a sacada a rua a cidade os trilhos o trigo as estradas o mar o mundo e rindo não não quebres nunca os teus invólucros as tuas formas passa
Lentamente a mão do anel que eu te dei e era vidro depois ri ri muito ri bêbado ri louco ri ate te surpreenderes com a tua não dor até te surpreenderes com não me ver nunca mais e com a desimportancia absoluta de não me ver nunca mais e com minha mão nos teus cabelos distante invisível intocada no vento
Perdida a minha mão de espuma abrindo de leve esta porta assim:

Amar é para perdedores, assim como vc e eu.